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A neurociência

"Saber como funciona o próprio cérebro e o dos alunos  pode ajudar o professor  a dar mais apoio à aprendizagem. "

Elvira Souza Lima

"Na primeira vez que Elvira mostrou o que acontece no cérebro quando uma criança aprende, a vontade que 
deu foi de saber mais, de estudar mais. " 
Carla Brenes Teixeira, professora



ENTREVISTA COM A PROFA. DRA. ELVIRA SOUZA LIMA


Elvira Souza Lima é pesquisadora em desenvolvimento humano, com formação em neurociências, psicologia, antropologia e música. Trabalha com pesquisa aplicada às áreas de educação, mídia e cultura. Tem várias publicações, entre elas "A criança pequena e suas linguagens", "Quando a criança não aprende a ler e a escrever", "Práticas culturais e aprendizagem", "Brincar para quê?", "Neurociência e aprendizagem", "Neurociência e escrita". Atualmente desenvolve seu projeto ESCRITA PARA TODOS em prefeituras e em escolas. É Doutora em Ciências da Educação pela Sorbonne/Paris; fez pós-doutoramento na Stanford University em antropologia e Linguística, com bolsa da FAPESP, pós-doutoramento, pelo CNPq, no Institte for the Study of Child Development, University of New Jersey e pós-doutoramento em Educação Multicultural na University of New México.

PF: Para o século XXI, se anuncia uma contribuição importante para a educação formal vinda da neurociência, área de conhecimento, que se estabeleceu na segunda metade do século XX e que, pelo impressionante número de pesquisas e estudos, ampliou significativamente nosso conhecimento sobre como nós, os seres humanos, nos desenvolvemos e aprendemos. Como é seu olhar diante das transformações provocadas pela neurociência no processo de aprendizagem e como pode contribuir para a formação do professor?

Profa.Elvira: A neurociência lança luz na docência, revelando como ocorrem os processos de aprendizagem. Ela detalha, também, as particularidades de cada período de desenvolvimento do aluno e nos permite entender melhor como que ao aprender na escola. É um momento muito interessante da evolução da ciência, pois temos mais condições de encaminhar a docência para a aprendizagem de todos.
O que mais me surpreende é como o professor, de posse de alguns conhecimentos da neurociência, transforma sua prática e aumenta sua autoestima. O que a neurociência revela é que o cérebro do adulto também não é estático, é altamente plástico e se reformula de acordo com a vida da pessoa. Ora, um adulto que educa as novas gerações está sempre em “movimento” interno. Todos os dias, várias horas por dia, ele está em interação muito ativa com o conhecimento e com os alunos. Então ele é sujeito da ação educativa e sua pessoa se transforma pela ação profissional que ele exerce.
Oque a neurociência deixa claro é que nós, que formamos outros adultos, precisamos entendê-los como seres de cultura, de emoção e que são, assim como as crianças e jovens, pessoas em desenvolvimento. Entender o adulto professor como ser humano em transformação é o que nos permite desafiar, promover, provocar novas formulações mentais. A formação continuada perde seu caráter estático para envolver o trabalho pedagógico como ponto de partida, para então, analisá-lo à luz das teorias e da pesquisa. Não se pode fazer um pacote e impô-lo ao professor, o que precisa é que o professor seja autor, participe da proposta pedagógica, torne este processo em memórias de longa duração.
PF: A neurociência valoriza a pessoa do adulto educador ao mesmo tempo em que o alerta para a complexidade da ação humana de ensinar, por um lado, e de aprender, por outro. Em suas palestras uma de suas falas está relacionada ao número de intervenções que um professor faz em sala de aula o tempo todo com seus alunos. Como são interpretadas pelos cérebros dos professores essas intervenções?

Profa. Elvira: A primeira coisa que se pode dizer é que se torna muito cansativo para o cérebro do professor a repetição seguida e as negociações constantes para se conseguir a atenção dos alunos. Pesquisas mostram que o professor brasileiro passa muito mais tempo que os de alguns países chamando atenção, fazendo advertências ou resolvendo confusões em sala de aula. É um desgaste grande, porque, também, ele tem menos tempo de ensinar, os alunos aprendem menos, dependem de recuperações de vários tipos. No final, é um grande desgaste e a energia que se deve empregar na docência se dilui em ações que pouco tem a ver com o ensino propriamente dito.
O caminho para sair disto é introduzir a educação da atenção como componente curricular. Outros países já o fizeram. Esta é uma característica das gerações atuais, que desenvolvem padrões de atenção para o uso das novas tecnologias e que precisam desenvolver aqueles necessários para as atividades escolares.
A ação docente também é um exercício de criatividade. O professor precisa ter, digamos, seu cérebro disponível para ensinar, o que só acontece se outros fatores de disciplina não interferirem todo o tempo.

PF: Em seu livro, Memória e imaginação, a senhora afirmam que “A imaginação cria condições de aprendizagem, enquanto a memória possibilita a aprendizagem.” Como seria essa afirmativa na prática, ou seja, no contexto escolar?

Profa. Elvira: Tudo que o professor diz, em geral, precisa ser imaginado. Raramente o aluno “VÊ”o que o professor está falando. Por exemplo, quando o professor ensina o ciclo d’água, a criança precisa imaginar este ciclo, porque ela não pode presenciá-lo com um sentido, como a visão, por exemplo. Imaginar traz os elementos possíveis, cria um contexto mental que poderá levar à formação de um conceito. Conceito é memória.
O processo é, na verdade, dialético, pois imaginamos com o acervo de memórias que já formamos. Agora, para aprender temos que criar novas memórias de longa duração, se não formarmos não há aprendizagem (dos conhecimentos formais).
Desenvolvera imaginação da criança, desde a educação infantil, torna-se, então, um componente curricular importantíssimo. E deve prosseguir pelos anos da educação fundamental. Com isto, também, resolvemos um dos desafios maiores que temos atualmente, que é motivar os alunos ao estudo. A imaginação funciona como uma mola propulsora.

PF: Profa. Elvira Sabemos que as pessoas (crianças, adultos e adolescentes) não aprendem da mesma maneira e no mesmo tempo. Algumas possuem mais facilidade e outras mais dificuldades. Como diferenciar alunos que não estão aprendendo eventualmente, daqueles que apresentam dificuldades estruturais de aprendizagem? Como trabalhar em sala de aula com estas diferenças?

Profa. Elvira: Esta visão mais psicológica da aprendizagem é discutida atualmente principalmente à luz dos conhecimentos da neurociência sobre a aprendizagem dos conhecimentos formais. Conhecimento formal engloba todas as ciências, as artes e os sistemas simbólicos. Muitas coisas aprendemos no cotidiano, por estratégias várias. Os conhecimentos formais, no entanto, não se constituem de maneira fortuita: dependem da sistematização, do estudo, da continuidade entre conceitos e conteúdos.
A continuidade é fundamental: o quanto um aluno aprende e o tempo que leva para aprender dependem intrinsecamente do que ele já aprendeu. Ou seja, depende da qualidade da docência. Por exemplo, um aluno que domine o princípio multiplicativo ou a base dez terá instrumentos mentais para aprender com maior presteza outros conhecimentos da matemática, frações, equações, expressões algébricas e assim por diante. Da mesma maneira quem domina desde o primeiro ano de escola a sintaxe disporá de mais condições para aprender a escrever sentenças com subordinação, dominará regência verbal e com isto estará mais apto a escrever um texto ou compreender a leitura. 
As diferenças existem, inclusive, também, em função de outros aspectos de desenvolvimento do aluno. Por exemplo, criança que estuda um instrumento musical terá à sua disposição estruturas mentais que facilitarão a aprendizagem de certas áreas do conhecimento formal.
É um assunto extenso, mas não podemos mais pensar em estruturas fixas, rígidas na pessoa que a tornem um aluno menos capaz de aprender. Há uma grande plasticidade no cérebro, o que desafia muito os educadores hoje em dia. A docência se revela como uma ciência que não pode se apoiar totalmente na psicologia, como aconteceu no século passado.

PF: Depois de tantos anos dedicados a educação, com uma vasta experiência dentro e fora de nosso país, qual a sua percepção a respeito da avaliação ministrada nas escolas brasileiras?

Profa. Elvira: No Brasil não temos, digamos, uma cultura de avaliação externa da escola, seja ela dirigida a alunos, professores ou gestores. Estamos engatinhando nesta área e é natural que estejamos aprendendo a realizar, a conviver e a utilizar avaliação como um componente importante da vida escolar. Há muito ainda pela frente.
Quanto à avaliação realizada na escola pelos professores e pela instituição, temos um caráter muito restrito, voltado ao “não”: o que o aluno não aprendeu, o que não conseguiu resolver, o que não sabe. O importante é identificar, através da avaliação, o que ele “já” aprendeu, quais ideias passam pela sua cabeça, como está lidando com as informações. Então seria uma avaliação em que as aprendizagens feitas recebem um destaque e, também, em que a apropriação do método e a formação de conceitos são avaliadas. 
Temos respaldo na neurociência para pensar que o caminho de formação das memórias passa pela aquisição de conhecimentos. Isto é novas memórias se formam integradas às memórias existentes. Quais memórias foram formadas nos alunos e quais serão as próximas dentro de cada área do conhecimento? O que o aluno se apropriou em termos de método? Um novo elemento ensinado deverá se conectar com outros já existentes na mente do aluno. Avaliação é a ação na educação que revela ao professor a sequência da docência a ser realizada com seus alunos segundo o nível de desenvolvimento deles e as aquisições que se espera que eles façam em seu percurso escolar.

PF: A inclusão digital traz consigo alguns diferencias pertencentes ao manuseio e adaptação dos alunos. Hoje temos o material digital em tablets em algumas escolas, e-books on line, objetos de aprendizagem, oficinas de construção de atividades on line e muitos outros recursos. Como é visto pela Sra. esse processo de construção de conhecimento? Como o cérebro atua em meio a um complexo de informações?

Profa. Elvira: O cérebro é que aprende, em qualquer situação histórica e a cada estágio de desenvolvimento cultural da humanidade. Assim, o conhecimento se consegue através da formação de memórias que resultam do binômio docência-estudo. O fato de termos tantos produtos oriundos do desenvolvimento tecnológico não muda essencialmente a natureza do processo de aprendizagem que se realiza pelo cérebro e fica gravado no cérebro.
Mudam os suportes, porém, a efetivação da aprendizagem é o conceito formado, o método internalizado. Não há grandes diferenças em um e-book online e um livro de papel na mão: é a interação da pessoa com o conteúdo que vai contar, não a mídia especificamente. 

Entrevista concedida à Cíntia Faro - Portal Futurum Educativo S.A

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José Nunes Pereira (J.Nunez) comerciante por profissão, no Marília Doces e Salgados, poeta (por vocação) pesquisador, criador do Imparcialismo, integrante do Movimento Artístico, intelectual e literário Os Imparcialistas. Editor por hobby.